É significativo que o único critério decente que os paleontólogos têm para saber se determinado macaco fóssil (ou antropoide, para os puristas) já é humano ou ainda não — é se enterrava os seus mortos. Ou, para usar um termo mais ao gosto deles, racional ou não. Em fins do século retrasado, achavam que as simples características anatômicas dos ossos serviriam para distinguir um do outro, mas a fraude de Piltdown e a enorme variedade de espécies humanoides encontradas depois fizeram o assunto se esfumar. Mais tarde, Oakley propôs man the tool-maker — que o homem se distinguiria dos animais por fabricar instrumentos –, mas apareceram observações de chimpanzés, elefantes, orcas e até passarinhos que mandaram esse critério para as cucuias. Quanto ao pensamento abstrato puro ou a linguagem, insistem no lamentável hábito de não se fossilizar, fornecendo hard evidence, apesar das múltiplas teorias especulativas recentes.

Sobra, pois, este fato: uma das definições possíveis para nós é que somos o único animal que enterra os seus mortos. O que paradoxalmente significa que esses mortos passam a ser nossos; mais, que continuam a viver para nós; justamente o que não acontece no caso dos animais.

Desde o princípio, o enterro remove o morto da vista dos vivos, poupando-os ao espetáculo da sua degradação, mas mantendo-o por perto. Mostra que o reconhecem como igual a eles — ou seja, que têm conceito de “homem”, são racionais; os animais parecem já não reconhecer o morto pouco tempo depois dos estertores. Mas o enterro assinala também o morto como um indivíduo único e irrepetível: só ele, centro de tantas relações de afeto que não se conseguem extinguir. Dá-lhe, por assim dizer, uma nova personalidade, definitiva, que é a que tinha anteriormente, mas chegada à plenitude; é uma nova realidade que merece um nome novo, definitivo, simétrico ao provisório que recebeu no nascimento. Podem assim os vivos alimentar a esperança de que também o morto continua vivo. E essa ausência presente lhe confere o brilho do sagrado.

Depois, na linha histórica, a presença dos mortos só se confirma e intensifica. A matéria-prima da arqueologia é constituída, em sua esmagadora maioria, por templos, lixeiras e… túmulos. Não sei se exatamente nessa ordem, mas é por aí. Os mortos entram na crônica e na arte, e daí para a frente a morte não cessa de engrandecer-se: a tragédia de Ifigênia, o assassinato de Júlio César, Thomas More dominam o nosso teatro, pintura (o Triunfo da morte, de Brueghel o Velho!), literatura — o nosso pensamento. É um truísmo dizer que a história toda gira em torno dos mortos. Quase, quase dá para dizer que a filosofia inteira nasce da morte de Sócrates. E não falemos da morte de Cristo.

A conclusão é inescapável: a vida gira em torno da morte.

* * *

Antes de explicar essa frase, uma observação. Estas reflexões não nascem de nenhum clima tétrico em que eu esteja metido, muito pelo contrário; para citar o Renato Russo, nos últimos tempos ando tão tranquilo e tão contente. Talvez tenham a ver com o fato de que, por necessidade cronológica, a minha morte venha despontando no horizonte. Dizia-me uma vez um amigo: “Aos vinte, somos oniscientes, onipotentes e invulneráveis”. Aos quarenta, concluímos os dois, já não é bem assim. E aos quase sessenta, a suprema vulnerabilidade já está claramente à vista.

O que esta realidade me sugere, porém, nada tem de triste. Em certo sentido, é até um alívio. Não porque lamente a minha vida, pelo contrário; e sim porque a morte é o fim, no seu duplo sentido de conclusão e de meta. Que corredor de maratona não se alegra de ver a faixa? Não temos todos, no fim do dia de trabalho, a satisfação de olhar para trás e poder dizer: “Apesar dos eventuais pesares, isto está feito, e fui eu que o fiz?” Nas palavras de Pessoa, em Mensagem: “A alma é divina e a obra é imperfeita. / Este padrão sinala ao vento e aos céus / Que, da obra ousada, é minha a parte feita: / O por-fazer é só com Deus”.

Filosofia não é mais que viver para a morte (Fédon, XXIX). Na esteira de Sócrates, Platão já entendia a verdadeira filosofia não como a retórica dos sofistas de então, mas como aquilo a que chamou vita philosophica. Nem mudaram os adversários, nem essa busca da sabedoria prática. Pois a expressão “vida filosófica” designava uma sabedoria prática, um modo de viver que exigia toda uma ascese — pobreza, castidade, generosidade e espírito magnânimo –, a fim de tornar conscientes os atos e integrá-los assim verdadeiramente no todo da pessoa. Para torná-los definitivos, à altura do selo final da morte.

Pois a morte põe o selo de qualidade à vida. É o que confere a ela todo o seu valor e sentido. Por ser definitiva (também aqui há dois sentidos: o de terminar, dando contornos claros e, com isso, um conteúdo preciso; mas que é ao mesmo tempo irreversível), de certa forma a embrulha e prepara para presente. Está completa, per-feita: completamente feita. É o melhor que a pessoa pode fazer. Com isso, justamente porque nunca mais voltará, cada momento do anterior viver para a morte se torna infinitamente precioso. E de certa forma a vida inteira torna-se a minha obra, como a obra de arte é do artista, acabada em cada detalhe.

* * *

Tinha eu chegado a estas alturas da minha ruminação quando entrou em contato comigo um amigo jovem que eu havia perdido de vista, mas não do coração, há alguns anos. Acabava de converter-se do budismo para o cristianismo, e queria fazer-me compartilhar da sua alegria. Entre muitas outras coisas, contou-me que antes acreditava na reencarnação, e que isso conferia um caráter provisório, de quebra-galho, a tudo o que fazia: “Se não der, amanhã tem mais…” Apenas quando havia entendido que a vida é uma só, e que a morte dava um caráter definitivo a cada ato, tinha conseguido apreciar como cada segundo do tempo é lindo. Mais ainda, só agora enxergava que podia fazer algo, realizar uma missão.

A seguir, diante da minha boca escancarada (metaforicamente, espero), repetiu-me tudo o que eu disse no parágrafo acima, em grifo. Nas mesmas palavras. A diferença é que, se no meu pensamento elas tinham um sentido e intensidade um (não é gralha), no dele tinham sentido e intensidade cem: os de quem entrou em luta corpo-a-corpo com cada uma delas, e venceu. Acho que pela primeira vez na vida, ao olhar para ele e ouvi-lo falar, entendi o que significa “não caber em si de alegria”.

Não tenho a pretensão de explicar a coincidência. Aliás, não tenho fé suficiente para acreditar em coincidências.

O que sei é que também Joseph Conrad dizia quase o mesmo, embora antes com certa dureza polêmica contra o reencarnacionismo, se não me engano no prefácio a um livro de outra pessoa. A referência precisa já se perdeu no passado: li-o numa coleção completa das obras de Conrad publicada lá pela década de trinta, na casa de um amigo, no Rio, que já não existe (a casa, o amigo só faleceu). O sentido era este: é a suprema indignidade querer que uma pessoa que sofreu, amou, criou uma família, trabalhou e construiu, encontre o sentido da sua vida tendo que comparecer, após a morte, a dar pancadinhas na madeira em sessões espiritualistas mal-iluminadas, só para satisfazer a curiosidade mais ou menos mórbida de meia dúzia de frívolos gentlemen e ladies… (A violência do comentário é dele, não minha).

Não tenho intenção aqui de criticar nenhuma religião, mas apenas de comunicar a quem interessar possa a conclusão a que cheguei: longe de transformar a nossa existência aqui numa ópera italiana ou numa paixão inútil, é a morte que confere sentido e valor definitivos a ela. Perdoem-me a repetição, é que as palavras são pobres, mas são essas. Ouçam-nas com a intensidade que o meu amigo conferia a elas.

* * *

Lembro-me de ter lido há muitos anos o romance histórico Samurai, do escritor Shusaku Endo, do renouveau catholique japonês. Gira em torno de duas figuras reais, a do frade Luis Sotelo e de Hasekura Tsunemaga, enviado pelo seu senhor fidal, o daimyo Date Masamune, como embaixador à Santa Sé entre 1613 e 1620. Enquanto seguem a sua lenta e penosa viagem pela Nova Espanha, Roma e as Filipinas, Tsunemaga batiza-se, mas no Japão desencadeia-se a plena perseguição aos cristãos por parte shogun Tokugawa Yesasu, possivelmente motivada precisamente pela iniciativa da embaixada por parte de um seu inferior. Quando retornam, o samurai, que se convertera com certa relutância durante o percurso, é exilado; e o frade — que tinha sido retratado como uma personalidade bastante complexa e pouco reta, talvez mais na interpretação de Endo do que na vida real, não sei –, enfrenta o martírio sem fraquejar. Ao ser engolido pelas chamas da fogueira a que é amarrado, sua exclamação final é “Eu vivi…”.

Na ocasião, pareceu-me tudo permeado de uma fé muito fraca, especialmente esta última frase. Hoje, conhecendo-me talvez melhor a mim, e com certeza a vida, não tenho tanta pressa em julgar. E, à luz das considerações grifadas, agrada-me especialmente o grito final unido a um martírio apesar de tudo, porque retrata os diversos aspectos que eu queria exprimir: seja qual tenha sido a minha vida, neste momento de suprema coragem recebe um selo final que enobrece tudo o que veio antes.

Dizia antes que há na morte um paradoxo. A suprema vulnerabilidade pode transformar-se no supremo ato de fortaleza, o ato do martírio. E em toda a morte parece realizar-se ao menos um pouco dessa transfiguração, pois toda a morte tem certa dimensão de martírio, por mais tênue que seja.

* * *

É totalmente compreensível que as pessoas tenham medo de morrer, porque é como se se abrisse em nós uma ferida que nos arrancasse de todo o nosso mundo, das tarefas realizadas de que podemos orgulhar-nos, das inacabadas que não poderemos concluir, dos amores que tanto nos consolavam. O que não é tão compreensível é que, sendo a morte por assim dizer o inevitável absoluto (só os impostos chegam perto, mas agora já nem eles lhe sobrevivem…), insistam tão teimosamente em não respirar a fundo e encará-la de frente, o que a transformaria de dor em glória.

O pior é que essa clássica tática do avestruz não funciona, e é o que comprovamos a toda a nossa volta. Confesso que a doutrina da metempsicose ou reencarnação, a forma mais tradicional e espalhada de envesgar o olhar, só me lembra os adiamentos com que eu me enganava diante dos deveres desagradáveis. A prova não ia embora por causa das minhas demoras, e só o que eu conseguia era tornar-me um mau aluno crônico, mais inclinado ainda aos adiamentos diante da próxima meta.

O iluminismo quis fugir do problema varrendo os mortos para debaixo do tapete, escondendo-os nos cemitérios, sob alegação de saúde pública (antes costumavam ser enterrados em dois lugares muito mais sensatos: as casas em que tinham vivido e as igrejas ou templos); mais trabalho — e mais dor para os parentes, que os trazem enterrados no coração e não podem ir vê-los com a frequência de que gostariam. Tentaram então removê-los mais completamente, cremando-os; de pouco adiantou, pois, como dizia um amigo meu ateu, o resultado final do processo post-mortem é o mesmo: carvãozinho; antes, no solo ou num caixão, agora numa urna. Se espalharem as cinzas pelo jardim — não acho de todo mau como símbolo –, será ele quem lhes lembrará o tempo todo a/o desaparecida/o. E como todas essas medidas não acabam de removê-los, as pessoas passam a fingir, com mais rigor abstrato, que simplesmente não existem mais: em consequência, passam a assombrar obsessivamente a nossa imaginação, como fantasmas ou vampiros ou zumbis de livros ou do cinema.

Todos esses mortos que tentamos esquecer sem consegui-lo (mortos-vivos, agora), só gerarão os mesmos efeitos de qualquer outro medo: obsessão, angústia, tristeza e alucinações. Mil vezes a coragem do pequeno martírio cotidiano: a atenção alegre a todas as obras, importantes ou minúsculas, para torná-las perfeitas, completas, a fim de reuni-las em braçada no dia da morte.

* * *

E o tema tem ainda uma última pergunta-ramificação — um corolário, diria. Se o corpo do morto permanece e se desfaz, onde está ele mesmo, o seu sorriso, a sua alegria, ou o seu sofrimento? Ou seja, aquilo a que se chama vida, alma, graça? (não a sobrenatural, mas aquela da pergunta cortês: “Qual a sua graça?”).

Afirmamos que a ausência presente do morto o eleva ao plano do sagrado (o morto-vivo, em contraste, é só superstição, sagrado de araque). Ao “embrulhar” o conjunto da sua vida, entende-se que a entrega de presente à esfera do divino, ao céu. Por que essa convicção universal?

Que significa então essa sobrevivência da pessoa no sagrado, da alma no céu (ou no seu contrário)? Confesso que a prova racional da imortalidade da alma elaborada por Platão no Fédon, por conaturalidade com as ideias, imutáveis e imortais, nunca terminou de me convencer. Aristóteles evita o tema, e, se não me engano, também São Tomás não adota essa prova, considerando que a sempiternidade das almas humanas só poderia demonstrar-se pela fé (posso estar errado, e agradeceria ser corrigido). Mas há outra via, mais existencial, porque esse tema é existencial por excelência, e está associado ao que falávamos (é por isso que dei esses laivos algo confessionais a esta crônica-ensaio; provas existenciais não convencem se forem apresentadas desencarnadamente).

Gabriel Marcel tem a famosa frase: “Amar alguém significa dizer-lhe: Tu não morrerás”. É o desejo uivante de qualquer um de nós, no entanto impotentes para realizá-lo. Mas, se o fato igualmente berrante de existirmos é a prova mais simples e cabal de que Deus nos ama, como duvidar de que é exatamente isso o que Ele nos diz? “Tu és o meu filho… Tu não morrerás, porque Eu hoje te gerei… Dar-te-ei, escrito numa pedra branca, um nome novo que só tu e Eu conheceremos”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *