Reencontrando a tradição

Em tempos em que a rejeição a todas as tradições e a tudo que vem dos nossos antepassados se tornou moda, nunca é redundante lembrar uma verdade fundamental. Por mais que rejeitemos nossa cultura e procuremos trocar de fé, de filosofia e de costumes, por mais que nos rebelemos contra nossos pais e nosso berço, somos e não podemos evitar de sê-lo – não podemos porque até a língua em que nos expressamos e o modo de raciocinar que aprendemos deriva dessa tradição, porque até nossa valoração da crítica e da rebeldia e nosso modo de enxergar as culturas exógenas não consegue se desfazer do molde de pensamento por ela erguido – judeus e gregos.

Tudo o que chamamos de civilização e todas as suas instituições basilares (a Ciência, a universidade, o Direito, as grandes ideias do pensamento, as artes) brotaram de uma síntese entre a filosofia grega e a fé judaica. Um casamento perfeito e poderoso entre os dois arcabouços de conhecimento alçou o pensamento humano a horizontes jamais imaginados, gerando pilares dentro dos quais foi possível incorporar e purificar elementos de todas as culturas com que teve contato (dando a essa síntese uma elasticidade que a permite avançar e recuar e assumir quantas formas concretas quantas forem as comunidades humanas). Não há escapatória: grega e judia são as duas hélices do nosso DNA e seguirão impressas em nossos genes não importa por que caminhos construamos nossas biografias.

Para o homem antigo, essa síntese parecia o evento mais improvável que se poderia imaginar. Que coisas pareciam tão adversárias quanto a razão, que impele para o exame crítico de todas as coisas, e a fé, que exige o assentimento imediato à verdade proclamada? Que homens pareciam tão distintos quanto Abraão, que assente sem pestanejar à ordem de Deus para sacrificar seu único filho, e Sócrates, que questionava dialeticamente tudo e todos no meio da rua? A Filosofia havia florescido na Grécia exatamente derrotando os mitos como modo de explicação do mundo. A razão grega nasceu em guerra contra a fé. Como é possível que venha Sócrates a unir-se a Abraão?

Pessoalmente, creio que, se tivéssemos que nomear um momento histórico em que se deu essa síntese, deveríamos apontar para um venerável ancião, quase centenário, exilado na Ilha de Patmos, a escrever sua obra definitiva: São João.

São João foi um dos homens que, aqui na terra, teve a visão mais privilegiada de todas as coisas. Chamado por Jesus a segui-Lo na mais tenra juventude, abandonou tudo no mesmo instante, consagrou-se no celibato e na vida inteiramente devotada a Deus. Foi um dos primeiros discípulos de Cristo e estava presente desde o Seu primeiro milagre. Foi o único apóstolo presente ao pé da Cruz em que o Senhor pendeu, quando todos os outros fugiram. Recebeu como encargo levar Nossa Senhora para casa e cuidou dela até o fim de sua vida. Viveu anos com a Mãe de Deus, tendo-lhe acesso franco para consultá-la sobre o que desejasse. Foi o apóstolo mais longevo: tinha vinte e poucos anos quando assistiu à morte de Cristo e faleceu quase centenário. Teve, pois, cerca de setenta anos para meditar todas as verdades sobrenaturais que tivera diante dos olhos, tempo em que se instruiu com o melhor do arcabouço de conhecimentos antigos de que dispunha, versando-se na Filosofia grega, além de toda a sabedoria judaica. Poucos homens tiveram a oportunidade de experimentar tão ampla gama de saberes de todas as ordens.

É apoiado em tudo isso que São João nos lega o seu Evangelho, uma verdadeira obra-prima em todos os sentidos. O Evangelho de São João transpira toda a erudição de um homem versado nas artes humanas. Enquanto os três evangelhos sinóticos são essencialmente narrativos, o seu é um tratado teológico, que se empenha na explicação profunda do sentido sobrenatural de cada passagem. Literariamente estruturado segundo os padrões da “Poética”, de Aristóteles, constrói-se no concerto de passagens sempre longas e escolhidas a dedo, nas quais desfia os elementos centrais da realidade de Cristo. A intimidade juvenil que tinha com Nosso Senhor ressoa em relatos que penetram além das ações de Jesus, contando-nos os movimentos de Seu coração.

O Prólogo de seu Evangelho são os dezoito versículos mais importantes da história do homem. Costumo dizer que, se, por uma absurda tragédia, se perdesse tudo o que hoje chamamos de civilização, mas sobrasse esse prólogo, teríamos os meios suficientes para reconstruir todas as ciências. Nele, João identifica Jesus com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e O batiza curiosamente de Verbo (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”). O apóstolo escreve em grego, utilizando a palavra Logos, termo tirado da Filosofia. Na Filosofia grega, o Logos (que tem tanto o sentido de “palavra” quanto o de “razão” – os gregos entendiam que o pensamento opera sempre por meio da linguagem) era a razão permanente de todas as coisas, aquilo que se mantém em todas as transformações passageiras e nos permite compreender a ordem do cosmos.

Ao identificar Jesus com o Logos, São João une a Filosofia grega e a fé de Israel. Proclama que a razão pela qual pretendemos compreender tudo à luz da crítica do nosso intelecto é, para os cristãos, uma pessoa: a Pessoa de Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade Divina, a Razão eterna de Deus, por meio da Qual tudo foi criado. Portanto, ao nos lançarmos à compreensão do mundo por meio da razão e do questionamento radical, não nos rebelamos contra Deus, mas nos aproximamos d’Ele, que é a Ordem e a Razão que sustenta a existência.

Na luta do Logos contra os mitos, o cristianismo não é um contra-ataque dos mitos. O cristianismo vem dar razão à razão e confirmar seu triunfo definitivo sobre as superstições pagãs. Entre os gregos, havia uma separação entre os deuses da religião, adorados nas cerimônias populares e cívicas, e o Deus dos filósofos, por eles pensado como o sustentáculo necessário do universo.

O cristianismo não é uma nova mitologia. O Deus dos cristãos não é um novo titã a concorrer pelo Olimpo. O Deus dos cristãos é precisamente o Deus que nunca foi adorado pelos pagãos, mas que foi pensado pelos filósofos como motor imóvel do mundo. O cristianismo vem encerrar o divórcio entre a devoção e a especulação. O Deus que o intelecto descobre ao contemplar a realidade é exatamente o Deus que será adorado nos altares.

O homem clássico foi formado no definitivo modelo representado por essa aliança. A fé e a razão são suas duas faces, os dois componentes inseparáveis de seu modo de pensar e de enxergar o mundo. A sempre dinâmica tensão entre a crítica rebelde e a submissão reverente conformaram sua alma. Nele, o natural ampara-se no sobrenatural, que o pressupõe e o eleva a cumes insuspeitados. A definitiva síntese operada por São João formou o horizonte decisivo dentro do qual todas as instituições que hoje conhecemos foram gestadas.

Evidentemente, não se pode perder de vista que a relação entre os termos fundamentais da nascente civilização é sempre mutável e em permanente tensão interna. Ao longo da Idade Média, o pensamento evoluía entre disputas fraternas pelos direitos da fé e da razão. Foi constante a peleja entre os adeptos de certo tradicionalismo agostiniano, ciosos da supremacia da fé (São Pedro Damião, São Bernardo de Claraval, São Boaventura), e os aristotélicos, que realçavam a autonomia da razão (Pedro Abelardo, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino). As disputas, porém, sempre pressupunham a relação fundante entre as duas hélices do DNA do mundo cristão.

Pelo concurso de uma série de fatores políticos, econômicos, ideológicos e culturais, que não é o caso de detalhar aqui, o mundo medieval conheceu o seu ocaso. Os homens do novo mundo, na ânsia de superação de tudo o que fizesse recordar o medievo, lançaram-se a desfazer a harmonia entre fé e razão que o sustentava.

Os movimentos que inauguram a modernidade não são senão uma busca pelo retorno a uma situação em que um dos dois pilares estivesse ainda imaculado, antes do infame casamento. Por um lado, o Renascimento era uma tentativa de retorno a uma filosofia grega pura, livre da miscigenação com a fé cristã. Por outro, a Reforma Protestante propôs-se a um regresso a uma religião cristã original, puramente judaica e purificada da ilegítima helenização promovida pelo catolicismo medieval.

O homem moderno, preso em sua epopeia quixotesca, é incapaz de compreender que mesmo seu modo de compreender a razão, a Filosofia, a fé e de olhar para o mundo pagão está irremediavelmente marcado pela união orgânica em que foi gestado. Dos dois caminhos possíveis, o racionalismo marcou mais a nova mentalidade do que o fideísmo. Sem entender que a fé não lhe castrava a razão, mas a alçava a voos muito mais altos do que poderia empreender por si, o homem moderno julgou que sua razão, livre das amarras do assentimento à revelação, seria capaz de tudo compreender e de resolver definitivamente todos os problemas que ainda perduravam na humanidade.

A pretensão da razão iluminista não tardou a ser desmentida pela realidade. O império definitivo da razão e o fim das turbulências da história não só não veio, como o homem moderno não demorou a tombar escravo da irracionalidade. As revoluções liberais degeneraram em tirania e em genocídio, duas guerras mundiais demonstraram a impotência do homem diante da violência do caos, os totalitarismos antimodernos ganharam popularidade diante da desmascarada fraqueza dos regimes liberais, o avanço da Ciência, além de não trazer ao homem a prometida solução de todos os desconfortos e moléstias e as desejadas respostas para o sentido de todas as coisas, se fez subserviente aos propósitos bárbaros dos governos vis, testemunhando o mundo no século XX tragédias em escalas jamais sonhadas pelos mais cruéis pagãos.

Se o iluminismo foi o porre da razão, a pós-modernidade é a ressaca da razão. O homem pós-moderno, vendo suas esperanças brutalmente desfeitas, caiu em si e percebeu que sua razão é intrinsecamente sustentada pela cultura cristã em que foi gestada. O homem não tem uma razão descolada da tradição milenar que a educou e lhe fixou os limites. Se se perdeu a esperança na antiga fé, é forçoso abandonar as esperanças na racionalidade também.

Não é à-toa que Nietzsche identificou o surgimento da tragédia humana num duplo nascimento: o nascimento de Sócrates e o de Jesus. O profeta da pós-modernidade viu o que escapou aos modernos: a razão e a fé são as duas hélices do nosso DNA. Uma subsiste da outra, e ambas só se compreendem dentro do liame orgânico que gerou a civilização. Para rejeitar uma, é preciso rejeitar ambas. O homem só se renovará quando se livrar de toda a tradição, quando tudo o que veio dos judeus e dos gregos estiver definitivamente esquecido.

O homem pós-moderno entendeu que não existem parâmetros fora do paradigma fundante da civilização cristã e, assim, busca uma vida sem parâmetros. Atirou-se no abismo da desesperança e do niilismo. Por um lado, é mais consciente do mundo do que os soberbos e ridículos modernos, conhecendo seu próprio nada e sua própria fraqueza diante do caos e dos desejos de poder dos homens mais bem dotados. Por outro, sua vida é ainda mais irracional e desumana, chegando ao animalesco pela rejeição de qualquer proposta de solução para sua miséria existencial.

A dolorosa depressão não deixa de ser um bom sinal. É o sinal de quem se de deu conta de que este mundo, largado à sua própria sorte, é um vale de lágrimas. Se o homem pós-moderno pudesse ser levado a compreender que existe uma luz, uma luz verdadeira, que não pode ser facilmente apagada pelas intempéries da história como as luzes artificiais dos revolucionários bobocas, poderíamos iniciar um caminho de reconstrução do pensamento e da civilização humana.

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