De onde vem o homem? Tem-se um corpo não especializado e adaptado à sua inteligência, como conseguiu essa adaptação? Se suas tendências e seu comportamento diferem do dos animais, quando começou a ser diferente? Não seria simplesmente um animal evoluído? O problema da origem do homem não é uma questão simples, pois é um fato não experimentável; portanto, é difícil para a ciência esclarecê-lo completamente. O que podemos fazer é um conjunto de reflexões que pertencem mais à antropologia e à filosofia do que a um corpo de propostas científico-positivas.

A origem do homem não pode ser tratada a não ser no contexto da origem e da evolução da vida dentro do cosmos. Os fatos passados que a ciência pode testemunhar a respeito são ainda mais incertos, e para interpretá-los é necessário assumir alguns tipos de hipóteses, visão filosófica do mundo, que não são fornecidas pela própria ciência. Fundamentalmente, ocorrem duas hipóteses:

I) A lei da vida é fruto do acaso, e se formou por combinações espontâneas de mutações genéticas, a partir de seres vivos muito elementares: ”o equilíbrio e a ordem na natureza não surgem de um controle superior e exterior (divino), ou da existência de leis que operam diretamente sobre a realidade, mas, sim, da luta dos indivíduos para o seu próprio benefício (em terminologia moderna, pela transmissão dos seus genes às gerações futuras através no êxito diferencial na reprodução) [1]”. Em outras palavras: a evolução não segue um caminho ascendente e previsível. Toda espécie é, em certo sentido, um acidente.

II) A lei da vida faz parte de uma lei cósmica e de uma ordem inteligente, organizada por uma inteligência criadora a qual dotou o universo com um dinamismo intrínseco que se move em aos seus próprios fins. A isso se pode chamar, em sentido amplo, criacionismo. No que se refere ao homem, ambas as posturas aceitam em princípio que a e evolução da vida “preparou” a aparição do homem mediante a presença na Terra de animais evoluídos, chamados hominídeos.  A esta parte pré-humana da evolução do homem podemos chamar de processo de hominização. Refere-se aos antepassados imediatos do homem. A diferença entre as duas explicações mencionadas é sobre o que aconteceu depois: a aparição da pessoa humana e sua progressiva tomada de consciência a respeito de si própria e do meio ao seu entorno chamamos processo de humanização a esta segunda parte da história do homem.

As investigações paleontológicas que buscam a origem exata do homem versam sobre o processo de hominização. O problema com o qual esse trabalho se enfrenta é explicar por que, quando e como o corpo do hominídeo evoluiu e se tornou semelhante do corpo do homem atual. Trata-se de explicar as características corporais as quais já nos referimos: extensão da caixa cerebral, bipedismo e posição livre das mãos, diminuição da dentição anterior etc. A tese que nos parece mais sugestiva é a que afirma que essas mudanças foram facilitadas em grande parte por uma mudança na estratégia sexual e reprodutiva desses pré-humanos. Os componentes dessa nova estratégia “seriam a monogamia, o estreitamento da ligação entre os membros do casal, a divisão do território para a colheita e a  caça, a redução da mobilidade da mãe e sua cria recente, e o maior aprendizado dos indivíduos jovens”[2].

A serviço da eficácia biológica dessa nova estratégia, se teria selecionado toda uma série de singularidades: ”a receptividade permanente da fêmea, o encontro frontal e reprodutor, o permanente desenvolvimento mamário, as peculiaridades do dimorfismo sexual humano, a desaceleração do desenvolvimento embrionário etc ”[3]. Todos eles Todos eles são rasgos que forçam a coesão do grupo, como seria numa família humana: a evolução corporal dos hominídeos teria tido como condição prévia o estabelecimento dos motivos biológicos do que depois seria a família humana.

Em contrate, no que se refere ao processo de humanização posterior, as duas posturas mencionadas acima diferem completamente. Para o evolucionismo emergentista, a aparição das mutações acima identificadas e da mesma pessoa humana, seria um processo contínuo e casual, fruto de mutações espontâneas, nascidas das estratégias adaptativas dos indivíduos sobreviventes frente a determinadas mudanças do ambiente. Não diferenças entre o processo de hominização e humanização, trata-se de um único processo contínuo.

Entre os problemas dessa postura, estão o modo pouco conveniente com que explicam a aparição “casual” do homem e de todo o mundo humano;  e a mesma maneira casual com que explicam a aparição, no processo da evolução, das inovações complexas – como por exemplo, o olho, organismo que devido a sua complexidade não é crível que se possa constituir e funcionar graças às mutações casuais. No fundo, recorrer ã causalidade como explicação seria algo parecido como a tentativa de alguns personagens da História sem fim, Michael Ende. Esses escreviam frases com sentido, lançando um dado de 27 faces em cada uma das quais se encontrava escrita uma letra. Para se conseguir uma palavra o número de jogadas era imenso. Pode- se imaginar a dificuldade em se chegar em uma frase como: “Em um lugar de la Mancha de cujo o nome não quero lembra-me…” Por último, calcule-se a impossibilidade de se escrever uma obra como El Quixote com um método tão extravagante. Pois, provavelmente isso seria mais simples que o aparecimento, por causalidade, de um olho e que se funcione, e que além do mais, haja um capaz de captar o visto e de entende-lo. Não podemos, em nome da ciência, pedir o impossível. É uma brincadeira, não vale.

Entretanto, os argumentos mais sérios contra essa teoria não são apenas os internos da própria ciência biológica, mas também os derivados de considerar a diferença que há entre os animais e o homem, entre o mundo natural e o humano, entre um formigueiro ou um colônia de gorilas e o Museu do Louvre. É uma diferença suficientemente profunda para que seja necessário dar acerca dela uma ordem de explicações capazes de justifica-las de verdade. O homem tem um tipo peculiar de alma que é dotada de Inteligência e um caráter pessoal. A inteligência é imaterial, visto que é capaz de superar o tempo, pensar, querer, amar etc. Os elementos especificamente humanos são irredutíveis à matéria, ainda que inseparáveis dela.

A explicação criacionista distingue claramente esse processo de humanização do de hominização. Delineia-se a origem da pessoa humana a partir de uma instância que está mais além do homem e do mundo, da causalidade: Deus, Inteligência que doa.

[1] S. Gould. Brontosaurus y la nalga del ministro. Reflexiones sobre historia natural. Grijalbo-Círculo de Lectores, Barcelona, 1993, 12.

[2] A. LLANO. “Ingeraciones de la biología y la antropologia”, cit., 205.

[3] Ibid.

Trecho do livro Fundamentos de Antropologia de Ricardo Yepes, Instituto Raimundo Lúlio, 2005.

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