A crença dos utilitaristas

“— Dígame, Guitton, lo que puede ser hoy una religiosidad materialista. (Pergunta Pascal).

— Un producto de lujo que aporta a materialismos satisfechos satisfacciones suplementarias. Emociones o percepciones extrañas, exquisitas y superfluas, en el ámbito de la sensibilidad o de la curiosidad. Resacralización de un erotismo desencantado. Gusto por lo fantástico y el horror, esoterismo y simbolismo, videncia y magia, necesidad de vida en común en tal ambiente: de ahí las sectas, y así sucesivamente.”

 “Mi testamento filosófico – Jean Guitton”.

No que crê o homem contemporâneo?

Não é novidade para ninguém que vivemos em uma era de crise. Basta ligar a televisão em algum noticiário ou em um desses canais de pastores. Todos estarão anunciando o apocalipse. O curioso é que há nesse movimento propagandístico alguns indícios muito relevantes para a análise da própria crise.

O homem como animal religioso busca insaciavelmente se religar com aquilo que chamamos vagamente de Absoluto. Um força, energia ou entidade que dê algum sentido para a parca existência cotidiana. O problema não está na busca em si, mas no que se busca. Enquanto os mártires cristãos trocavam sua vida pela de Cristo – uma pessoa – os judiciosos pagãos ofereciam sacrifícios em honra da Fortuna – um “deus-objeto”. Quando olhamos ao nosso redor – e dentro de nós -o que encontramos? A busca pela Pessoa ou pelo deus-objeto?

O maior dos erros modernos foi – e continua sendo -, ao meu ver, buscar um fim puramente imanente para a natureza relacional da pessoa. Ou seja, as relações se estabelecem prioritariamente sob o molde do “de mim para mim”. Ora, se o homem tem como maior sentido para existência a manutenção de si próprio, o único valor que levará em conta é o do mundo interior: seus anseios, medos, sonhos, ambições etc.  Tudo o que não toca seu universo pessoal mais íntimo é inócuo ou inconveniente. Até aqui, haverá quem diga que tudo que há de autêntico no homem provém da sua intimidade e que, de fato, nada de legítimo poderá ser feito que antes não seja meticulosamente cultivado em seu interior. Pois bem, quem faz essa objeção está certo em partes. Para usar uma terminologia consagrada direi que tal processo é o estímulo do id freudiano, não da própria pessoalidade. Trocando em miúdos, quando prioriza a relação consigo em detrimento da relação com o outro, o homem constrói uma série de confusas imagens interiores, de maneira alguma ele forja a autenticidade. Assim, o deus-objeto do qual falamos é mais uma dessas imagens, uma força que oprime ou auto-afirma o sujeito.

Infelizmente, indo além, parece-me haver aqui outro fator complicador que exige atenção se realmente quisermos responder – ao menos em partes – a questão proposta. Precisamos considerar o fenômeno da não-religião (ou das “novas religiões”, como preferirem). Niilismos e esoterismos podem parecer, em uma primeira passada de olhos, movimentos díspares ou até contraditórios, mas ambos compartilham a devoção pelo deus-objeto. Os niilistas deificam a ciência experimental pois experimentalmente o homem não passa de um animal reprodutor, enquanto os esotéricos deificam as sensações pois sensivelmente o homem não passa de paixões. Ambos constroem deuses à medida de si mesmos para que possam viver uma moral que vá de si para si. Assim, o grande deus dos niilistas é o antidepressivo e o criador dos esotéricos é o LSD.

Ademais, vivem sua “religiosidade” sem muito esforço. Se não há um deus pessoal que nos acompanha desde o nascimento, não há razão para que haja conversão. Amar uma pessoa implica totalidade, amar um objeto implica egoísmo. Em certa medida, para o homem moderno qualquer fé é válida desde que não saia do id, do seu próprio interior.

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Ainda escreverei muito sobre esse assunto. Por isso, peço ao leitor que tenha paciência com a brevidade e incompletude da abordagem feita até então.

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