O debate moral do nosso tempo

A única questão moral relevante, em nossos dias, é a contracepção.

A frase é, evidentemente, hiperbólica, mas é um fato inegável que as grandes questões morais com que temos que nos defrontar no dia-a-dia da caótica sociedade contemporânea têm sua origem na aceitação da contracepção. Enquanto não nos dermos conta da raiz de nossos problemas, não conseguiremos tratar deles com a consciência necessária.

A maldade da contracepção está num ataque frontal à dignidade da mais elevada das faculdades corporais humanas: a faculdade sexual. A faculdade sexual é a mais clara marca divina impressa no corpo humano. Por ela, o homem diviniza-se e participa no ato criador do Pai. Por ela, o homem é capaz de gerar novos seres humanos, de natureza racional, à imagem e semelhança de Deus, de alma imortal e, portanto, dotado de dignidade infinita. O ato sexual é o auge da doação amorosa ao próximo, é a obra mais perfeita de amor que o ser humano pode realizar, um amor que transborda num outro ser como ele próprio. Nenhuma produção artística, nenhum edifício de arquitetura vale um ser humano.

A contracepção parte violentamente o ato sexual e separa o prazer da sexualidade da vida. A contracepção representa o mais torpe desvirtuamento da humanidade que se pode imaginar. Permite que se utilize a digníssima faculdade que se dirige à geração amorosa da vida humana para a mera satisfação de desejos animalescos. É a sobreposição dos baixos instintos à própria vida e à dignidade da pessoa. É a vileza em estado puro.

Isso ocasiona, por um lado, a perda do valor intrínseco da vida humana. A geração da vida passa a ser uma mera “escolha”, equiparável em mérito à satisfação dos prazeres imediatos. Está aberta a porta para o mal do aborto, que cada dia se expande em modalidades mais assustadoras (até o último dia de gravidez, infanticídio pós-parto, eutanásias forçadas).

Por outro, causa a perda do sentido da sexualidade humana, com sua consequente utilização dos modos mais grotescos e bestiais que cabem na criatividade do homem. A faculdade sexual não está mais dirigida à sua finalidade objetiva natural, logo, ela se torna um mero brinquedo à serviço de meus apetites, seja quais forem. Se me inclino fisicamente a ter relações com pessoas de quem mal sei o nome, a comercializar minha atividade sexual, a me relacionar com pessoas do mesmo sexo, com diversas pessoas ao mesmo tempo, com animais, com pedras, não há qualquer motivo para não me satisfazer quando e como me der na gana e para que tais relações afetivas não sejam institucionalmente reconhecidas como “uma opção legítima de busca pela felicidade” no mesmo patamar que uma família aberta à educação dos filhos.

Não adianta nada lutar contra o aborto, contra a dissolução da família e contra a ideologia de gênero se não se mantém uma oposição veemente à contracepção. Os ataques à vida e à sacralidade da sexualidade são duas ramas culturais do mesmo tronco podre, da violenta separação entre a condição sexual humana e sua digníssima finalidade natural de gerar o milagre dos filhos, novos seres pessoais que têm direito à existência.

Toda a luta moral no mundo de hoje só pode prosperar se está fundada numa recuperação do lugar próprio da sexualidade na existência humana corpórea. Quer dizer, numa consciência de que o ato sexual pertence, por natureza, ao âmbito da família constituída por uma união perpétua e indissolúvel entre homem e mulher, que se entregam integralmente numa doação amorosa que faz de ambos uma só carne e se abre à grande obra da vida. Nessa união, cabe, quando haja necessidade grave, valer-se dos períodos de infertilidade próprios do ciclo biológico feminino (inscritos pela natureza na linguagem do corpo da mulher) para espaçar a prole, em decisão prudente que respeita as razões do corpo humano, sem fechar a sexualidade à integralidade de seus dons.

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