Be nice, don’t be a snob.

Esse texto já estava quase pronto quando, hoje, a caminho do local onde trabalho, me deparei com uma cena que demonstra na prática o que estivera quebrando a cabeça para explicar na teoria. Pois bem, no sinal de trânsito (semáforo, para algumas regiões) um moço, com seu carro chique, parou bem em cima da faixa de pedestres e um senhor que estava ao meu lado, tentando atravessar com sua bicicleta, deu um batidinha no vidro para avisar o motorista que ele estava em cima da faixa atrapalhando a passagem de todos. Qual não foi o susto que todos tomamos com o escândalo, escarcéu, quiproquó que o sujeito-do-carro chique fez, clamando aos céus que ninguém pode ousar bater no vidro do seu carro. Do outro lado da rua, já um pouco distante, quando seguíamos nossos rumos, ainda dava para ouvir os brados vindos do âmago do moço-bravo-do-carro-chique: “NÃO BATA NO VIDRO DO MEU CARRO! NINGUÉM OUSA BATER NO VIDRO DO MEU CARRO!”.

Embora tenha sido uma cena lamentável, confesso que me alegrou um pouco tê-la vivenciado por ter oferecido um fato que serve de introdução ao meu texto cujo tema é de capital importância para nossos dias.

Há um certo tipo humano que vem crescendo e ocupando cada vez mais espaço na nossa sociedade. É o que José Ortega y Gasset chamou “o homem-massa” e o fenômeno de sua ascensão aos lugares de influência “a rebelião das massas”, expressão que dá título ao seu livro mais conhecido.

Esse homem-massa possui traços bastante peculiares, facilmente identificáveis em nós mesmos – infelizmente! – e em nossos concidadãos. Vejamos: esse tipo humano acredita ter muitos direitos e não possuir obrigações. Ora, como chegou na vida com tudo mais ou menos já resolvido e estabelecido, não passa pela sua cabeça que aquilo que recebeu custou esforço de seus antepassados. Acredita que as dádivas são obrigações que os outros lhe devem. São os señoritos satisfechos, que acham que podem se comportar fora de casa do mesmo modo que se comportam dentro, isso é, sem trabalhar para conseguir o que possuem e sem saber o que significa a palavra “consequência”.

Fechadas em si mesmas, o modus operandi das massas é a violência. Como não estão habituadas a recorrer a algum tipo de instância superior – ou seja, a algo que esteja para além de seus próprios umbigos – quando há um desacordo, por exemplo, sua atitude é de uma ação direta, incisiva, truculenta – sintoma de barbárie – e não o debate e a argumentação – posturas típicas de uma civilização avançada. Com suas almas herméticas, as massas não são capazes de justificar seus gostos e preferências: resta-lhes apenas impô-los – e ai de quem se lhes fizer oposição: passar-lhe-ão por cima como a manada passou por cima do menino da porteira.   

Além do mais, esse indivíduo que só tem apetites e acredita não possuir deveres carece do que Ortega chama “a nobreza que obriga”. É, portanto, um esnobe, como indica a origem inglesa do termo: “Na Inglaterra, as listas de vizinhos indicavam, junto de cada nome, o ofício e a classe da pessoa. Por isso, junto do nome dos simples burgueses, aparecia a abreviatura s.nob.; quer dizer, sem nobreza. Essa é a origem da palavra snob1. Ou seja, é próprio do homem-massa achar que a vida lhe deve tudo e ele mesmo não está obrigado a nada, que não há motivos que para se inquietar, afinal tudo em sua vida está na mais perfeita ordem, não é mesmo?

A divisão mais radical que existe na humanidade, afirma o filósofo espanhol, seria entre os homens nobres e excelentes e os homens vulgares e médios – massas, em última instância. E essa diferença reside na forma como se portam no mundo: os primeiros acumulam sobre seus ombros cargas e deveres, estão sempre em busca de algo que lhes transcende, colocam suas existências a serviço de uma causa, de um ideal, de alguém, sem verem nesse serviço uma escravidão, mas, antes, como o sentido próprio de suas vidas. E o próprio Ortega alerta contra o risco de um preconceito vigente com relação a esses homens: “quando se fala de minorias seletas, a trapaça comum é subverter o sentido da expressão, fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se crê superior aos outros, mas o que exige de si mesmo mais que os outros, mesmo que não consiga consumar em sua pessoa essas exigências superiores”2.

Já os segundos, os homens médios, estão contentes com o que são. Não procuram se diferenciar em nada dos demais – isso seria uma coisa terrível para eles! –. São como todos os outros, sem nada especial, amam o que todos amam, e sua maior habilidade está em ser como todo mundo e não almejar nada além. Estão “arqui-satisfeitos” consigo próprios e nutrem inclusive uma certa rejeição em relação aos que se destacam. “Para elas”, ou seja, para essas massas, afirma Ortega, “viver é ser em cada instante aquilo que já são, sem esforço de perfeição sobre si mesmas, boias à deriva”3.  

Como o esnobe está “vazio de destino próprio”, seu desacerto constitutivo está em viver a vida de fora para dentro, sem um eu de fundo, um eu que realmente faça as escolhas, que abrace as circunstâncias sem ser engolido por elas. Falta ao esnobe a consciência do risco da vida, dessa vida que nos foi dada, mas não foi dada pronta e que nos deixa, portanto, uma tarefa a cumprir. O esnobe é alheio às possibilidades de fracasso da vida, vive de modo desenraizado, superficial, falsificado, por assim dizer. É como o canalha que, tendo aberto mão de quem deveria ser, vive nas moradas inferiores do próprio eu, numa falsificação de si mesmo.  Compreende-se, afinal de contas:

“A vida humana, por sua própria natureza, tem que estar direcionada a algo, a uma empresa gloriosa ou humilde, a um destino ilustre ou trivial. Trata-se de uma condição estranha, mas inexorável, inscrita em nossa existência. Por um lado, viver é algo que cada um faz por si e para si. Por outro lado, se a minha vida, que só importa a mim, não é entregue por mim a algo, caminhará desvencilhada, sem tensão e sem “forma”. Nesses anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas pelo labirinto de si mesmas por não terem a que se entregar”4.

Essas considerações do Ortega sempre me trazem à mente a figura de Ivan Ilitch, personagem de Tolstoi, que poderia, em certo sentido, ser considerado um “esnobe raiz”. Isso não quer dizer que a personagem fosse uma má pessoa, nem que não fosse esforçado. Pode-se dizer até que foi um sujeito bastante aplicado, dedicado aos estudos etc. Mas acontece que, diante da morte, da sua morte, emergem, inexoravelmente, as mentiras existenciais que nutrira sem se dar conta: a constatação de que sua vida não tinha sentido, não era sua vida, mas apenas a realização das expectativas do que os outros – seus pares – nutriam a seu respeito. Fez tudo certo, mas não sabia por que fez o que fez. E sem esse porquê, nada tem sentido, coesão, e essas coisas não permanecem de pé quando a morte chega pedindo contas à consciência das escolhas feitas.

E são essas perguntas feitas diante da morte, “as perguntas dos náufragos”5, como costumava chamar Ortega, que devem ser feitas e sem as quais permanecemos na superficialidade da vida, sem reconhecer seu peso, seu drama, seu valor. As perguntas dos náufragos nos tiram – à força, muitas vezes – das trincheiras que forjamos para nos proteger das questões que realmente importam. Elas fazem lembrar o aspecto caótico da existência, sua inseguridade, seus riscos e dramas que aquele que está blindado atrás de ideias prontas, ou de imitação de padrões de comportamento, não é capaz de enxergar, e tenta, inutilmente, ocultar essa realidade “com um véu fantasmagórico onde está tudo muito claro”.

O próprio Ortega advertia que o decisivo em nossa vida é o quanto de exigências assumimos sobre nossos ombros, exigências essas que começam com a mais elementar: a busca pela verdade. Além do mais, Nietzsche dizia que o valor de um homem é determinado pela quantidade de verdade que ele é capaz de tolerar6. E a verdade fundamental que deve estar sempre diante dos olhos de quem aspira a uma vida verdadeira, com um conteúdo que não seja mera poeira na história, deve ser esta: a ideia da finitude, a ideia da própria morte. Somente aquele que vive desse modo poderá construir algo sólido, ao contrário do esnobe que se gaba de ser um ninguém, ninguém esse que vive escondido atrás de máscaras quase-convincentes e trincheiras requintadas.  

Ledo engano, portanto, o do esnobe, que não leva em consideração a máxima socrática que afirma que “uma vida sem exame não vale a pena ser vivida” e que, por isso, tem a doce ilusão de se considerar protegido dos dramas vitais, com suas ideias prontas, seus amores mornos, sua tolerância bem polida – ou não tão polida assim…

Quisera eu, pois, que o moço-bravo-do-carro-chique lesse esse texto só para eu poder lhe dirigir umas singelas palavras: “olha, não bateremos no vidro do seu carro, fique tranquilo! Mas a morte, meu amigo, ah, a morte baterá um dia, impreterivelmente, nas portas da sua consciência. E não haverá vidro que o blinde das perguntas mais fundamentais e dos exames mais profundos de sua própria vida. Seus brados não serão capazes de afugentar esse encontro consigo próprio. Portanto, se me permite um conselho, eu lhe digo: be nice, don’t be a snob!

1 ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Trad. Felipe Denardi. Campinas: Vide editorial, 2016, p.49.
2 Idem, p. 81
3 Idem, p. 81-82
4 Idem, p. 223
5 Idem, p. 239
6 PETERSON, Jordan. 12 regras para a vida: um antídoto para o caos. Trad. Wendy Campos, Alberto G. Streicher. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018, p.234

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