O torpor e a falta de fé

“A falta de fé na imortalidade da alma não é pois tão grave como gostariam de nos fazer crer”.

– Rémi Brague; Âncoras no Céu: a infraestrutura metafísica.

A frase lapidar de Rémi Brague que dá início a este pequeno ensaio antes de ser uma manifestação de vangloria cética é o lamento de um crente. Para o nosso espanto as pessoas conseguem lidar muito bem com a ideia de que depois da morte não há nada. O máximo que podemos ver de tais pessoas é uma ou outra manifestação de culpa – certo incômodo causado pela consciência rebelada – que é facilmente afogada por uma distração qualquer. As sondas virtuais que trazemos atadas ao nosso corpo nos fazem capazes de fugir de qualquer situação social desagradável: a presença de um conhecido inconveniente, a sala de aula, um jantar de família, o corredor de um hospital. Sempre haverá meios concretos para fugir. O maior drama que se apresenta às consciências hodiernas é: fugir para onde?

Quando se vive uma vida recheada de sentido a introspecção é sempre uma oportunidade para se sacar algo novo do baú da memória, cada visita é acompanhada da descoberta de uma dimensão de si próprio que, agradável ou não, é enriquecedora pois atualiza algo que estava esquecido ou abandonado no todo do seu ser pessoal. Se assim não fosse a maior regra da filosofia seria ignora-te a ti mesmo ao invés do ensinamento socrático conhecido por todos. Bem, daí podemos apreender que quem foge da realidade não o faz voltando-se para si próprio, haja visto que se o fizesse daria de cara com um emaranhado de impressões e sentimentos desconexos. Também, certamente, não fogem para o mundo. Aqui uso a expressão “mundo” desprovida de seu caráter bíblico para referenciar o domínio do caos e da contingência a que estamos aparentemente submetidos. Ainda que tivessem alguma ocupação que lhes preenchesse o tempo careciam do que Viktor Frankl chama de metasentido, a estrutura mesma de suas vidas, seu norte existencial. A esses, que estão na vida a passeio, só lhes resta procurar refúgio nas bolhas, nos guetos, nas sub-culturas, nas seitas, nos coletivos etc, afim de poder desfrutar de seu “nada” sem incômodos. Afinal, para um viandante distraído atravessar a rua é uma causa mortis muito provável. O reino dos famélicos, das pestes e contra-tempos é dos que podem ver neles o bem que subsiste em tudo que é. Desta forma, apelando a dois conceitos caros ao personalismo filosófico, essas pessoas ignoram tanto a sua interioridade quanto o seu entorno.

Depois de excluída a realidade resta o mundo ilusório. A ilusão é uma composição mais ou menos coerente de imagens falsas a respeito de si ou do que nos rodeia. Talvez o melhor modo de exemplificar esse estado de espírito seja equipará-lo às miragens das clássicas cenas de desenho animado em que um andarilho está sedento no deserto e de repente um oásis. Quando isso ocorre o andarilho está projetando na realidade algo que não está lá mas que ele queria que estivesse. As barreiras entre o consciente e o inconsciente se dissipam ao ponto de não ser possível distinguir entre os dados objetivos e as necessidades e impressões subjetivas. Isso é torpor. Há muitas maneiras de se estar entorpecido sendo a mais vulgarizada delas o uso de substâncias alucinógenas. No entanto, o entorpecimento é causado por tudo o que desloca o eixo da nossa consciência do real para o virtual. São potenciais entorpecentes os jogos, a bebida, o sexo, o estudo, a tecnologia, o sagrado – em suma, toda a experiência humana. O que nos salva do torpor é o êxtase, é o ato de sair de si mesmo – ou da imagem que temos de nós – e ir ao encontro da realidade enquanto tal. Ambas as experiências ( entorpecentes e extasiantes) tem como diferença capital entre si o modo como interagem com o real: as primeiras aproximam da vida “animal” enquanto as segundas aprofundam a vida “pessoal”.

Retomando a discussão central, façamos o link entre os pontos apresentados até o momento e a falta de fé. Diz S. Tomás de Aquino que “O objeto de qualquer hábito cognoscitivo encerra dois elementos: o conhecido materialmente, que é como o objeto material; e aquilo pelo que se conhece, que é a razão formal do objeto. (…) Assim também, se considerarmos a razão formal do objeto da fé esse não é senão a verdade primeira. Pois a fé, de que tratamos, não adere a um objeto senão enquanto revelado por Deus. Por onde, apoia-se na verdade divina, como meio. Se porém considerarmos materialmente os objetos aos quais a fé adere, esses incluem, não só Deus, mas ainda muitos outros. Os quais, porém não obtêm a adesão da fé, senão na medida em que se ordenam de algum modo para Deus; isto é, enquanto certos efeitos da divindade auxiliam o homem a tender para a fruição divina. Por onde, ainda por este lado, é o objeto da fé, de certo modo, a verdade primeira, porque nada cai sob o domínio da fé senão enquanto ordenado para Deus; assim como o objeto da medicina é a saúde, por nada considerar ela senão em ordem à saúde ”1. Ora, o entorpecido não apreende esses “muitos outros” “objetos aos quais a fé adere”, lhe falta a fé humana que é condição para a fé teologal. Em contrapartida aquele que se permite extasiar frente ao novo e ao diferente dispõe da fé humana na causalidade do cosmos, na palavra alheia e nas próprias limitações. Para ele nada é demasiadamente estranho para ser verdadeiro, pelo contrário, está disposto a engolir o real – tanto quanto possível – e digerí-lo ao longo da vida. Tal atitude permite uma atenção integral aos sinais divinos que são primícias da fé revelada.

O “homem animal” não se preocupa com a questão da imortalidade da alma porque para ele a morte não é realmente uma questão. Seus impulsos febris embotam os olhos para tudo o que é transcendente centrando-se na virtualidade ou na desordem. O barulho é seu descanso e a ilusão seu passatempo. Como poderia crer se ainda não se decidiu a ser?

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